A
Borboleta Azul
Havia
um viúvo que morava com suas duas filhas que eram muito
curiosas e inteligentes. As meninas estavam o tempo todo fazendo
perguntas. Algumas ele sabia responder, outras não. Algumas
vezes não temos realmente a resposta outras preferimos
nos abster.
Como
todo pai, que quer sempre o melhor para os filhos, ele pretendia
oferecer a elas a melhor educação, então
mandou as meninas passarem férias com um sábio que
morava no alto de uma colina.
O
sábio sempre respondia todas as perguntas sem hesitar.
Impacientes com o sábio, as meninas resolveram inventar
uma pergunta que ele não saberia responder.
Então,
uma delas apareceu com uma linda borboleta azul que usaria para
pregar uma peça no sábio.
-
O que você vai fazer? - perguntou a irmã.
-
Vou esconder a borboleta em minhas mãos e perguntar se
ela está viva ou morta.
-
Se ele disser que ela está morta, vou abrir minhas mãos
e deixá-la voar. Se ele disser que ela está viva,
vou apertá-la e esmagá-la. E assim qualquer resposta
que o sábio nos der estará errada!
As
duas meninas foram então ao encontro do sábio, que
estava meditando.
-
Tenho aqui uma borboleta azul. Diga-me sábio, ela está
viva ou morta?
Calmamente
o sábio sorriu e respondeu:
-
Depende de você... ela está em suas mãos.

Assim
é a nossa vida, o nosso presente e o nosso futuro. Não
devemos culpar ninguém quando algo dá errado. Somos
nós os responsáveis por aquilo que fazemos ou deixamos
de fazer; conquistamos ou não conquistamos. Nós
somos os próprios culpados pelas nossa vitórias
e fracassos. Deus nos deixa escolher.

A
fábula é uma das mais antigas maneiras de se contar
uma história. O autor grego Esopo usava muitos bichos como
personagens de suas fábulas, como tartarugas, lebres, raposas,
formigas e cigarras. Através das histórias ele criticava
os valores da sociedade de sua época, para mostrar o que
é certo e o que é errado.
Autor:
Esopo
O Carvalho e os Juncos
Um
grande carvalho foi arrancado do chão pela ventania e arrastado
por forte correnteza. Então dentro da água ele se
viu no meio de alguns Juncos, e, assim lhes falou:
- Gostaria de ser como vocês que de tão esguios e
frágeis não são de modo algum afetados por
estes fortes ventos.
Eles responderam:
- Você lutou e competiu com o vento, e, conseqüentemente
foi destruído. Nós, ao contrário, nos curvamos
diante do mais leve sopro de ar, e, por esta razão permanecemos
inteiros e a salvo.
Moral: Para vencermos o mais forte, não devemos usar a
força e sim a gentileza e a humildade.
A lebre e a tartaruga
Um dia uma tartaruga começou a contar vantagem dizendo
que corria muito depressa, que a lebre era muito mole, e enquanto
falava, a tartaruga ria e ria da lebre. Mas a lebre ficou mesmo
impressionada foi quando a tartaruga resolveu apostar uma corrida
com ela.
"Deve
ser só de brincadeira!", pensou a lebre.
A
raposa era o juiz e recebia as apostas. A corrida começou,
e na mesma hora, claro, a lebre passou à frente da tartaruga.
O dia estava quente, por isso lá pelo meio do caminho a
lebre teve a idéia de brincar um pouco. Depois de brincar,
resolveu tirar uma soneca à sombra fresquinha de uma árvore.
"Se
por acaso a tartaruga me passar, é só correr um
pouco e fico na frente de novo", pensou.
A
lebre achava que não ia perder aquela corrida de jeito
nenhum. Enquanto isso, lá vinha a tartaruga com seu jeitão,
arrastando os pés, sempre na mesma velocidade, sem descansar
nem uma vez, só pensando na chegada. Ora, a lebre dormiu
tanto que esqueceu de prestar atenção na tartaruga.
Quando ela acordou, cadê a tartaruga? Bem que a lebre se
levantou e saiu zunindo, mas nem adiantava! De longe ela viu a
tartaruga esperando por ela na linha de chegada.
Moral:
Devagar e sempre se chega na frente.
A raposa e a máscara
Um dia uma raposa entrou na casa de um ator e encontrou uma linda
máscara no meio de uma pilha de objetos usados no teatro.
Encostando a pata na máscara, disse:
-
Que belo rosto temos aqui! Pena que não tenha cérebro.
Os ladrões e o galo
Uma vez uns ladrões entraram numa casa, mas não
encontraram nada que valesse a pena roubar, a não ser um
galo. O coitado do galo disse a eles tudo o que um galo é
capaz de dizer para tentar salvar a pele. Disse que eles não
esquecessem como ele era importante para as pessoas com seu canto
que acordava a todos na hora de ir trabalhar.
–
Olhe, seu galo – disse um dos ladrões – , é
melhor parar com essas conversa. Você passa o tempo acordando
as pessoas e o resultado é que não conseguimos roubar
sossegados.
Moral:
Nem o que temos de melhor agrada a todo mundo.
O lobo e o burro
Um burro estava comendo quando viu um lobo escondido espiando
tudo o que ele fazia. Percebendo que estava em perigo, o burro
imaginou um plano para salvar a pele. Fingiu que era aleijado
e saiu mancando com a maior dificuldade. Quando o lobo apareceu,
o burro todo choroso contou que tinha pisado num espinho pontudo.
–
Ai, ai, ai! Por favor, tire o espinho de minha pata! – implorou.
– Se você não tirar, ele vai espetar sua garganta
quando você me engolir.
O
lobo não queria se engasgar na hora de comer seu almoço,
por isso quando o burro levantou a pata ele começou a procurar
o espinho com todo o cuidado. Nesse momento o burro deu o maior
coice de sua vida e acabou com a alegria do lobo. Enquanto o lobo
se levantava todo dolorido, o burro galopava satisfeito para longe
dali.
Moral:
Cuidado com os favores inesperados.
O leopardo e a raposa
Uma raposa e um leopardo estavam deitados descansando depois de
um laudo jantar e se distraíam falando da própria
beleza. O leopardo tinha muito orgulho de sua pele lustrosa e
toda pintada, e dizia à raposa que ela era completamente
sem graça. A raposa se orgulhava da bela cauda estufada
com a pontinha branca, mas tinha o bom senso de reconhecer que
não chegava aos pés do leopardo em matéria
de aparência. Mesmo assim, continuou com suas brincadeiras,
fazendo troça do outro só pelo prazer da discussão
e para não perder a prática. O leopardo já
estava quase perdendo a paciência quando a raposa levantou
bocejando e disse:
-
Você pode ter um pêlo muito requintado, mas estaria
mais bem servido se tivesse um pouquinho mais de requinte dentro
da cabeça e menos ao redor das costelas, como eu. Para
mim, beleza de verdade é isso.
Moral:
Nem sempre bela embalagem anuncia belo recheio.
O lobo e a cegonha
Um lobo devorou sua caça tão depressa, com tanto
apetite, que acabou ficando com um osso entalado na garganta.
Cheio de dor, o lobo começou a correr de um lado para outro
soltando uivos, e ofereceu uma bela recompensa para quem tirasse
o osso de sua garganta. Com pena do lobo e com vontade de ganhar
o dinheiro, uma cegonha resolveu enfrentar o perigo. Depois de
tirar o osso, quis saber onde estava a recompensa que o lobo tinha
prometido.
-
Recompensa? – berrou o lobo. – Mas que cegonha pechinchona!
Que recompensa, que nada! Você enfiou a cabeça na
minha boca e em vez de arrancar sua cabeça com uma dentada
deixei que você a tirasse lá de dentro sem um arranhãozinho.
Você não acha que tem muita sorte, seu bicho insolente!
Dê o fora e se cuide para nunca mais chegar perto de minhas
garras!
Moral:
Não espere gratidão ao mostrar caridade para um
inimigo.
O urso e a raposa
Um urso passava o tempo contando como gostava dos homens.
–
Não vou lá perturbar nem estraçalhar os homens
quando eles morrem – disse ele.
A
raposa respondeu com um sorriso:
–
Eu ia ficar mais convencida de sua bondade se você não
costumasse comer os homens vivos!
Moral:
Mais vale ter pena dos vivos que respeito com os mortos.
A velha e suas criadas
Uma viúva econômica e zelosa tinha duas empregadas.
As empregadas da viúva trabalhavam, trabalhavam e trabalhavam.
De manhã bem cedo tinham que pular da cama, pois sua velha
patroa queria que começassem a trabalhar assim que o galo
cantasse. As duas detestavam ter que levantar tão cedo,
especialmente no inverno, e achavam que se o galo não acordasse
a patroa tão cedo talvez pudessem dormir mais um pouco.
Por isso pegaram o galo e torceram seu pescoço. Mas não
estavam preparadas para as conseqüências do que fizeram.
Porque o resultado foi que a patroa, sem o despertador do galo,
passou a acordar as criadas ainda mais cedo e punha as duas para
trabalhar no meio da noite.
Moral:
Muita esperteza nem sempre dá certo.
A montanha
Há muitos e muitos anos uma montanha começou a fazer
um barulhão. As pessoas acharam que era porque ela ia ter
um filho. Veio gente de longe e de perto, e se formou uma grande
multidão querendo ver o que ia nascer da montanha. Bobos
e sabidos, todos tinham seus palpites. Os dias foram passando,
as semanas foram passando e no fim os meses foram passando, e
o barulho da montanha aumentava cada vez mais. Os palpites das
pessoas foram ficando cada vez mais malucos. Alguns diziam que
o mundo ia acabar. Um belo dia o barulho ficou fortíssimo,
a montanha tremeu toda e depois rachou num rugido de arrepiar
os cabelos. As pessoas nem respiravam de medo. De repente, do
meio do pó e do barulho, apareceu... um rato.
Moral:
Nem sempre as promessas magníficas dão resultados
impressionantes.
A águia e a seta
Uma águia pousada num penhasco olhava com muita atenção
para todos os lados procurando uma presa. Um caçador, escondido
numa fenda da montanha e em busca de caça, viu a águia
lá em cima e lançou uma seta. A haste da seta penetrou
no peito da águia e atravessou seu coração.
Pouco antes de morrer, a águia fixou os olhos na seta:
-
Ah, sorte ingrata! – exclamou. – Morrer desse jeito...
Mas o mais triste é ver que a seta que me mata tem penas
de águia!
Moral:
As desgraças para as quais nós mesmos contribuímos
são duplamente amargas.
O urso e as abelhas
Um urso topou com uma árvore caída que servia de
depósito de mel para um enxame de abelhas. Começou
a farejar o tronco quando uma das abelhas do enxame voltou do
campo de trevos. Adivinhando o que ele queria, deu uma picada
daquelas no urso e depois desapareceu no buraco do tronco. O urso
ficou louco de raiva e se pôs a arranhar o tronco com as
garras na esperança de destruir o ninho. A única
coisa que conseguiu foi fazer o enxame inteiro sair atrás
dele. O urso fugiu a toda a velocidade e só se salvou porque
mergulhou de cabeça num lago.
Moral:
Mais vale suportar um só ferimento em silêncio
que perder o controle e acabar todo machucado.
O homem, seu filho e o burro...
Um homem ia com o filho levar um burro para vender no mercado.
–
O que você tem na cabeça para levar um burro estrada
afora sem nada no lombo enquanto você se cansa? –
disse um homem que passou por eles.
Ouvindo
aquilo, o homem montou o filho no burro, e os três continuaram
seu caminho!
–
Ô rapazinho preguiçoso, que vergonha deixar o seu
pobre pai, um velho andar a pé enquanto vai montado! –
disse outro homem com quem cruzaram.
O
homem tirou o filho de cima do burro e montou ele mesmo. Passaram
duas mulheres e uma disse para a outra:
–
Olhe só que sujeito egoísta! Vai no burro e o filhinho
a pé, coitado...
Ouvindo
aquilo, o homem fez o menino montar no burro na frente dele. O
primeiro viajante que apareceu na estrada perguntou ao homem:
–
Esse burro é seu?
O
homem disse que sim. O outro continuou:
–
Pois não parece, pelo jeito como o senhor trata o bicho.
Ora, o senhor é que devia carregar o burro em lugar de
fazer com que ele carregasse duas pessoas.
Na
mesma hora o homem amarrou as pernas do burro num pau, e lá
se foram pai e filho aos tropeções carregando o
animal para o mercado. Quando chegaram, todo mundo riu tanto que
o homem, enfurecido, jogou o burro no rio, pegou o filho pelo
braço e voltou para casa.
Moral:
Quem quer agradar todo mundo no fim não agrada ninguém.
A reunião geral dos ratos
Uma vez os ratos, que viviam com medo de um gato, resolveram fazer
uma reunião para encontrar um jeito de acabar com aquele
eterno transtorno. Muitos planos foram discutidos e abandonados.
No fim um rato jovem levantou-se e deu a idéia de pendurar
uma sineta no pescoço do gato; assim, sempre que o gato
chegasse perto eles ouviriam a sineta e poderiam fugir correndo.
Todo mundo bateu palmas: o problema estava resolvido. Vendo aquilo,
um rato velho que tinha ficado o tempo todo calado levantou-se
de seu canto. O rato falou que o plano era muito inteligente,
que com toda certeza as preocupações deles tinham
chegado ao fim. Só faltava uma coisa: quem ia pendurar
a sineta no pescoço do gato?
Moral:
Inventar é uma coisa, fazer é outra.
O rapaz e a moça inconstante
Certo dia uma moça inconstante disse a um rapaz:
-
Meu querido, muitos homens me amam, muitos me querem, mas eu só
amo você e espero ter você um dia. Não estou
preocupada com riqueza, neste mundo só quero você.
E
o rapaz respondeu, mesmo sabendo que ela era inconstante:
-
Nós dois queremos a mesma coisa, pois meu coração
chora por você. É verdade que você já
me enganou um dia, mas amo você e sempre vou amar.
Foi
assim que o rapaz ingênuo foi iludido pela moça inconstante.
Moral:
Cuidado com quem diz que não quer seu dinheiro.
O burro e seu condutor
Um burro que estava sendo conduzido por uma estrada conseguiu
se soltar de seu condutor e saiu correndo o mais depressa que
pôde, na direção de um precipício.
Já ia caindo quando seu condutor chegou correndo e conseguiu
segurar seu rabo. Começou a puxar o burro pelo rabo com
toda a força, tentando levar o animal para um lugar seguro.
O burro, porém, aborrecido com a interferência, fazia
força na direção oposta, e o homem acabou
sendo obrigado a largá-lo.
-
Bom, Jack – disse o condutor -se você quer dar as
ordens, não posso impedi-lo.
Moral:
Os animais teimosos devem seguir seus caminhos
O gato, o galo e o ratinho...
Um ratinho vivia num buraco com sua mãe. Depois de sair
sozinho pela primeira vez, contou a ela:
-
Mãe, você não imagina os bichos estranhos
que encontrei! Um era bonito e delicado, tinha um pêlo muito
macio e um rabo elegante, um rabo que se movia formando ondas.
O outro era um monstro horrível! No alto da cabeça
e debaixo do queixo ele era desprovido de penas. De repente os
lados do corpo dele se sacudiram e ele deu um grito apavorante.
Fiquei com tanto medo que fugi correndo, bem na hora que ia conversar
um pouco com o simpático.
-
Ah, meu filho! – respondeu a mãe. – Esse seu
monstro era uma ave inofensiva; um galo com sua crista vermelha,
o outro era um gato feroz, que num segundo teria te devorado.
Moral:
Jamais confie nas aparências.
Os dois amiguinhos
Uma vez uma garça adotou um filhote de tigre órfão
e criou o bebê junto com seu próprio filho. Os dois
viraram grandes amigos, e todo dia faziam a maior bagunça,
sem jamais brigar. Na realidade, eram as crianças mais
boazinhas do mundo. Um dia apareceu outra garça que era
uma encrenqueira; essa garça tratou muito mal o bebê
garça. O bebê garça pediu socorro, e o tigre
veio correndo: num instante engoliu a encrenqueira. Só
ficou um ossinho e um punhado de penas para contar a história.
O tigre, que tinha sido criado num regime vegetariano, achou aquela
comida diferente uma maravilha. Lambendo os bigodes, piscou o
olho e disse:
–
Como eu gosto de você minha pequena garça!
E
zás, lá se foi sua companheira de brincadeiras servir
de sobremesa para o piquenique improvisado.
Moral:
Nada elimina o que a natureza determina.
O Asno e o Velho Pastor
Um pastor observava tranqüilo seu asno pastando em uma verde
pradaria.
De
repente ouviu ao longe os gritos de uma tropa inimiga que se aproximava
rapidamente.
Ele
rogou ao animal para que este corresse levando-o na garupa, o
mais rápido que pudesse, a fim de que não fossem
ambos capturados. O asno com calma, falou:
Por que eu deveria temer o inimigo? Você acha provável
que o conquistador coloque em mim, além dos dois cestos
de carga que carrego, outros dois?
Não - respondeu o pastor.
Então - disse o animal - contanto que eu carregue os dois
cestos que já possuo, que diferença faz a quem estou
servindo?
Ao
mudar o governante, para o pobre, nada muda além do nome
do seu novo senhor.
O pescador flautista
Um pescador que gostava mais de música que das redes começou
a tocar flauta quando viu peixes no mar. Achava que ouvindo aquilo
os peixes iam pular para a praia. Vendo que eles continuavam dentro
da água, o pescador pegou uma rede e apanhou um belo cardume,
que arrastou para terra. Quando viu os peixes pulando e batendo
a cauda na areia ele sorriu e disse:
-
Como vocês não quiseram dançar ao som da minha
flauta, também não vou permitir que dancem agora!
Moral:
Fazer a coisa certa na hora certa é uma grande arte.
QUEM FOI ESOPO?
Fabulista grego, nascido pelo ano de 620 a. C. Ignora-se o lugar
de seu nascimento; alguns dizem ter sido Samos ou Sardes. Segundo
o historiador Heródoto, Esopo teria nascido na Frígia
e trabalhava como escravo numa casa. Há ainda alguns detalhes
atribuídos à biografia de Esopo, cuja veracidade
não se pode comprovar: seria corcunda e gago, protegido
do rei Creso.
Esopo
teria sido condenado à morte depois de uma falsa acusação
de sacrilégio, ou talvez porque os habitantes de Delfos
estivessem irritados com suas zombarias, ou ainda porque suspeitassem
de que Esopo teria a intenção de ficar com o dinheiro
que Creso lhe tinha destinado.
Esopo
não deixou nada escrito: as fábulas que lhe são
atribuídas pela tradição foram recolhidas
pela primeira vez por Demétrio de Falera, por volta de
325 a.C.
Antes do advento da impressão, as fábulas de Esopo
eram ilustradas em louça, em manuscritos e até em
tecidos.
Discute-se
a sua existência real, assim como acontece com Homero. Levanta-se
a possibilidade de sua obra ser uma compilação de
fábulas ditadas pela sabedoria popular da antiga Grécia.

O ursinho e as abelhas
Leonardo da Vinci
Um filhote de urso estava passeando pela floresta quando viu um
buraco no tronco de uma árvore.
Olhando
mais de perto, reparou que uma porção de abelhas
entrava e saía constantemente do buraco. Algumas permaneciam
em frente à entrada como se estivessem montando guarda.
Outras chegavam voando e entravam. Outras ainda saíam e
sumiam pela floresta adentro.
Cada
vez mais curioso, o ursinho pôs-se em pé nas patas
traseiras, meteu o focinho no buraco, farejou e depois enfiou
uma pata.
Quando
retirou a pata ela estava lambuzada de mel.
Porém
mal começara a lambê-la quando um enxame de abelhas
enfurecidas saiu do buraco e atacou-o, mordendo-lhe o focinho,
as orelhas, a boca, todo ele.
O
ursinho tentou defender-se, mas se enxotava as abelhas para um
lado elas voltavam e atacavam pelo outro. Enfurecido, tentou vingar-se
através de golpes pelos dois lados. Porém, querendo
atingir a todas, não conseguiu derrubar nenhuma. Finalmente
rolou pelo chão até que, vencido pelo medo e pela
dor das picadas, voltou correndo e chorando para junto de sua
mãe.
O Riacho
Leonardo da Vinci
Um riacho da montanha, esquecendo-se de que devia sua água
à chuva e a pequenos córregos, resolveu crescer
até ficar do tamanho de um rio.
Pôs-se
então a atirar-se violentamente de encontro às suas
margens, arrancando terra e pedras a fim de alargar seu leito.
Mas
quando a chuva acabou a água diminuiu. O pobre riacho viu-se
preso entre as pedras que arrancara de suas margens e foi forçado
a, com grande esforço, encontrar outro caminho para descer
até o vale.
Moral:
Quem tudo quer tudo perde.
Leonardo
da Vinci (1452-1519), artista florentino, um dos grandes mestres
do Renascimento, famoso como pintor, escultor, arquiteto, engenheiro
e cientista. Nasceu em Vinci, perto de Florença, filho
ilegítimo de um notário com uma camponesa. Além
do desenho, pintura e escultura, dedicou-se, também, ao
estudo da física, anatomia, botânica, matemática,
geologia e ciências hidráulicas. Leonardo da Vinci
é um dos maiores nomes da história da humanidade.
A menina do leite
Jean de La Fontaine
A menina não cabia em si de felicidade. Pela primeira vez
iria à cidade vender o leite de sua vaquinha. Trajando
o seu melhor vestido, ela partiu pela estrada com a lata de leite
na cabeça.
Enquanto caminhava, o leite chacoalhava dentro da lata.
E os pensamentos faziam o mesmo dentro da sua cabeça.
"Vou vender o leite e comprar uma dúzia de ovos."
"Depois, choco os ovos e ganho uma dúzia de pintinhos."
"Quando os pintinhos crescerem, terei bonitos galos e galinhas."
"Vendo os galos e crio as frangas, que são ótimas
botadeiras de ovos."
"Choco os ovos e terei mais galos e galinhas."
"Vendo tudo e compro uma cabrita."
"Se cada cabrita me der três cabritinhos, vendo dois,
fico com um e ..."
A menina estava tão distraída que tropeçou
numa pedra, perdeu o equilíbrio e levou um tombo.
Lá se foi o leite branquinho pelo chão.
E os ovos, os pintinhos, os galos, as galinhas, os cabritos, as
cabritinhas pelos ares.
Moral:Não
se deve contar com uma coisa antes de consegui-la.
Jean de La Fontaine era filho de um inspetor de águas e
florestas, e nasceu na pequena cidade de Chateau-Thierry. Estudou
teologia e direito em Paris, mas seu maior interesse sempre foi
a literatura.
A cigarra e a formiga
Jean de La Fontaine
A cigarra, sem pensar em guardar, a cantar passou o verão.
Eis que chega o inverno, e então, sem provisão na
despensa, como saída, ela pensa em recorrer a uma amiga:
sua vizinha, a formiga, pedindo a ela emprestado algum grão,
qualquer bocado, até o bom tempo voltar. "Antes de
agosto chegar, pode estar certa a senhora: pago com juros, sem
mora.
“ Obsequiosa, certamente, a formiga não seria.
"Que fizeste até outro dia? "perguntou à
imprevidente.
"Eu cantava, sim, Senhora, noite e dia, sem tristeza.
"Tu cantavas? Que beleza! Muito bem: pois dança agora...
*Do livro Fábulas de La Fontaine, 1992.
A
cigarra e a formiga
Monteiro Lobato
Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé
do formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento
era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.
Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos,
arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas. A pobre cigarra,
sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou
socorrer-se de alguém. Manquitolando, com uma asa a arrastar,
lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu – tique,
tique, tique... Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num
xalinho de paina. - Que quer? – perguntou, examinando a
triste mendiga suja de lama e a tossir. - Venho em busca de agasalho.
O mau tempo não cessa e eu...
A formiga olhou-a de alto a baixo. - E que fez durante o bom tempo
que não construí a sua casa? A pobre cigarra, toda
tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse. - Eu cantava,
bem sabe... - Ah!... exclamou a formiga recordando-se. Era você
então que cantava nessa árvore enquanto nós
labutávamos para encher as tulhas? - Isso mesmo, era eu...
Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas
que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía
e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade
ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que
aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo. A cigarra
entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias
de sol.
*Do livro Fábulas, Monteiro Lobato, 1994
Outra
versão...
Era uma vez uma formiguinha e uma cigarra que eram muito amigas.
Durante todo o Outono, a formiguinha trabalhou sem parar, a fim
de armazenar comida para o período de Inverno. Não
aproveitou nada do sol, da brisa suave do fim da tarde, do lindo
pôr-do-sol do Outono nem da conversa com as amigas. Só
vivia para o trabalho! Enquanto isso, a cigarra não desperdiçou
um minuto sequer: cantou durante todo o Outono, dançou,
aproveitou os tempos livres, sem se preocupar muito com o Inverno
que estava a chegar.
Então, passados alguns dias, começou a arrefecer.
Era o Inverno que estava a bater à porta. A formiguinha
exausta, entrou na sua singela e aconchegante toca, repleta de
comida. Entretanto, alguém chamava pelo seu nome do lado
de fora da toca e, quando abriu a porta, ficou surpresa: era a
sua amiga cigarra, vestida com um maravilhoso casaco de lã
e com uma mala e uma guitarra nas mãos.
- Olá, amiga! - cumprimentou a cigarra. - Vou passar o
Inverno em Paris. Será que você podia cuidar da minha
toca?
- Claro! Mas o que aconteceu para você ir para Paris?
A cigarra respondeu-lhe:
- Imagine você que, na semana passada, eu estava a cantar
num restaurante e um produtor gostou tanto da minha voz que fechei
um contrato de seis meses para fazer espetáculos em Paris.
A propósito, amiga, deseja algo de lá?
A formiguinha respondeu:
- Desejo, sim: se você encontrar por lá
um tal de La Fontaine, o que escreveu a nossa história,
manda-lhe um abraço...
Procura-se pelo autor
O
Patinho Feio
Adaptação de um conto de Hans Christian Andersen
Era uma vez...
Uma
patinha que teve quatro patinhos muito lindos, porém quando
nasceu o último, a patinha exclamou espantada:
- Nossa, que patinho tão feio!
Quando
a mãe pata nadava com os filhos, todos os animais da quinta
olhavam para eles:
- Que pato tão grande e tão feio!
Os irmãos tinham vergonha dele e gritavam-lhe:
- Vai-te embora porque é por tua causa que toda a gente
está a olhar para nós!
Afastou-se
tanto que deu por si na outra margem. De repente, ouviram-se uns
tiros. O Patinho Feio observou como um bando de gansos se lançava
em vôo. Os cães dos caçadores perseguiram-no
furioso.
Conseguiu
escapar do cão mas não tinha para onde ir, não
deixava de andar. Finalmente o Inverno chegou. Os animais do bosque
olhavam para ele cheios de pena.
- Onde é que irá o Patinho Feio com este frio? Não
parava de nevar. Escondeu-se debaixo de uns troncos e foi ali
que uma velhinha com um cãozinho o encontrou.
- Pobrezinho! Tão feio e tão magrinho!
E levou-o para casa.
Lá
em casa, trataram muito bem dele. Todos, menos um gatinho cheio
de ciúme, que pensava: "Desde que este patucho está
aqui, ninguém me liga".
Voltou
a Primavera. A velha cansou-se dele, porque não servia
para nada: não punha ovos e, além disso, comia muito,
porque estava a ficar muito grande.
O gato então aproveitou a ocasião.
- Vai-te embora! Não serves para nada!
A
nadar chegou a um lago em que passeavam dois belos cisnes que
olhavam para ele. O Patinho Feio pensou que o iriam enxotar. Muito
assustado, ia esconder a cabeça entre as asas quando, ao
ver-se refletido na água, viu, nada mais nada menos, do
que um belo cisne que não era outro senão ele próprio.
Os
cisnes desataram a voar e o Patinho Feio fugiu atrás deles.
Quando passou por cima da sua antiga quinta, os patinhos, seus
irmãos, olharam para eles e exclamaram:
- Que cisnes tão lindos!
~
~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~
Hans
Christian Andersen (1805-1875)
Era
uma vez um menino que passava seus dias espiando a vida dos outros.
Ao longo do tempo, ele juntou uma porção de histórias
curiosas sobre o que via e ouvia nas ruas. Com muita imaginação,
criou belos contos. Mais tarde, decidiu publicá-los. E
não é que até hoje eles fazem o maior sucesso?!
Era
uma vez... um garoto pobre e feio que queria ser ator. Uma de
suas poucas alegrias era assistir histórias populares encenadas
pelo pai, que era sapateiro, em um teatrinho feito de papelão.
Quando o pai morreu, o sonho do menino ficou mais distante, já
que ele teria que sustentar a família. Um dia, o garoto
partiu para bem longe e passou fome e frio até conhecer
um homem que pagou seus estudos e viagens pelo mundo. O menino
não se tornou ator, mas ficou rico e famoso escrevendo
histórias infantis.
A
vida do dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875)
daria um conto de fadas. E rendeu muitos, pois em cada narrativa
escrita por ele há um pouco de suas tristezas e alegrias,
como em O Patinho Feio. Ele é autor de cerca de 160 contos,
inspirados no mundo infantil e na tradição popular
dinamarquesa, autor de seis romances, além de poesias e
de uma autobiografia. Sua obra foi traduzida para mais de 100
línguas.
A
princesa e a ervilha
Adaptação
de um conto de Hans Christian Andersen
Era
uma vez um príncipe que queria se casar
com uma princesa, mas uma princesa de verdade, de sangue real
meeeeesmo. Viajou pelo mundo inteiro, à procura da princesa
dos seus sonhos, mas todas as que encontrava tinham algum defeito.
Não é que faltassem princesas, não: havia
de sobra, mas a dificuldade
era saber se realmente eram de sangue real. E o príncipe
retornou ao seu castelo, muito triste e desiludido, pois queria
muito casar com uma princesa de verdade.
Uma noite desabou uma tempestade medonha. Chovia
desabaladamente, com trovoadas, raios, relâmpagos. Um espetáculo
tremendo!
De repente bateram à porta do castelo, e o rei em pessoa
foi
atender, pois os criados estavam ocupados enxugando as salas cujas
janelas foram abertas pela tempestade.
Era
uma moça, que dizia ser uma princesa. Mas ela estava
encharcada de tal maneira, os cabelos escorrendo, as roupas grudadas
ao corpo, os sapatos quase desmanchando... que era difícil
acreditar que fosse realmente uma princesa real.
A moça tanto afirmou que era uma princesa que a rainha
pensou numa forma de provar se o que ela dizia era verdade.
Ordenou que sua criada de confiança empilhasse vinte colchões
no quarto de hóspedes e colocou sob eles uma ervilha. Aquela
seria a cama da “princesa”.
A moça estranhou a altura da cama, mas conseguiu, com a
ajuda de uma escada, se deitar.
No
dia seguinte, a rainha perguntou como ela havia dormido.
— Oh! Não consegui dormir — respondeu a moça,
— havia algo duro na minha cama, e me deixou até
manchas
roxas no corpo!
O rei, a rainha e o príncipe se olharam com surpresa. A
moça
era realmente uma princesa! Só mesmo uma princesa verdadeira
teria pele tão sensível para sentir um grão
de ervilha sob vinte colchões!!!
O príncipe casou com a princesa, feliz da vida, e a ervilha
foi enviada para um museu, e ainda deve estar por lá...
Acredite se quiser, mas esta história realmente aconteceu!
O
soldadinho de chumbo
Hans
Christian Andersen
Numa
loja de brinquedos havia uma caixa de papelão com
vinte e cinco soldadinhos de chumbo, todos iguaizinhos, pois
haviam sido feitos com o mesmo molde. Apenas um deles
era perneta: como fora o último a ser fundido, faltou chumbo
para completar a outra perna. Mas o soldadinho perneta logo
aprendeu a ficar em pé sobre a única perna e não
fazia feio ao lado dos irmãos.
Esses soldadinhos de chumbo eram muito bonitos e
elegantes, cada qual com seu fuzil ao ombro, a túnica
escarlate, calça azul e uma bela pluma no chapéu.
Além disso, tinham feições de soldados corajosos
e cumpridores do dever.
Os valorosos soldadinhos de chumbo aguardavam o
momento em que passariam a pertencer a algum menino.
Chegou o dia em que a caixa foi dada de presente de
aniversário a um garoto. Foi o presente de que ele mais
gostou:
— Que lindos soldadinhos! — exclamou maravilhado.
E os colocou enfileirados sobre a mesa, ao lado dos outros
brinquedos. O soldadinho de uma perna só era o último
da fileira.
Ao lado do pelotão de chumbo se erguia um lindo
castelo de papelão, um bosque de árvores verdinhas
e, em
frente, havia um pequeno lago feito de um pedaço de espelho.
A maior beleza, porém, era uma jovem que estava em
pé na porta do castelo. Ela também era de papel,
mas vestia
uma saia de tule bem franzida e uma blusa bem justa. Seu
lindo rostinho era emoldurado por longos cabelos negros,
presos por uma tiara enfeitada com uma pequenina pedra azul.
A atraente jovem era uma bailarina, por isso mantinha
os braços erguidos em arco sobre a cabeça. Com uma
das
pernas dobrada para trás, tão dobrada, mas tão
dobrada, que acabava escondida pela saia de tule.
O soldadinho a olhou longamente e logo se apaixonou, e
pensando que, tal como ele, aquela jovem tão linda tivesse
uma perna só.
“Mas é claro que ela não vai me querer para
marido”,
pensou entristecido o soldadinho, suspirando. “Tão
elegante,
tão bonita… Deve ser uma princesa. E eu? Nem cabo
sou,
vivo numa caixa de papelão, junto com meus vinte e quatro
irmãos”.
À noite, antes de deitar, o menino guardou os
soldadinhos na caixa, mas não percebeu que aquele de uma
perna só caíra atrás de uma grande cigarreira.
Quando os ponteiros do relógio marcaram meia-noite,
todos os brinquedos se animaram e começaram a aprontar
mil e uma. Uma enorme bagunça!
As bonecas organizaram um baile, enquanto o giz da
lousa desenhava bonequinhos nas paredes. Os soldadinhos
de chumbo, fechados na caixa, golpeavam a tampa para sair
e participar da festa, mas continuavam prisioneiros.
Mas o soldadinho de uma perna só e a bailarina não
saíram do lugar em que haviam sido colocados. Ele não
conseguia parar de olhar aquela maravilhosa criatura. Queria
ao menos tentar conhecê-la, para ficarem amigos.
De repente, se ergueu da cigarreira um homenzinho
muito mal-encarado. Era um gênio ruim, que só vivia
pensando em maldades. Assim que ele apareceu, todos os
brinquedos pararam amedrontados, pois já sabiam de quem
se tratava.
O geniozinho olhou a sua volta e viu o soldadinho,
deitado atrás da cigarreira.
— Ei, você aí, por que não está
na caixa, com seus
irmãos? — gritou o monstrinho.
Fingindo não escutar, o soldadinho continuou imóvel,
sem desviar os olhos da bailarina.
— Amanhã vou dar um jeito em você, você
vai ver!
— gritou o geniozinho enfezado. — Pode esperar.
Depois disso, pulou de cabeça na cigarreira, levantando
uma nuvem que fez todos espirrarem.
Na manhã seguinte, o menino tirou os soldadinhos de
chumbo da caixa, recolheu aquele de uma perna só, que estava
caído atrás da cigarreira, e os arrumou perto da
janela. O soldadinho de uma perna só, como de costume,
era o último da fila.
De repente, a janela se abriu, batendo fortemente as
venezianas. Teria sido o vento, ou o geniozinho maldoso? E
o pobre soldadinho caiu de cabeça na rua.
O menino viu quando o brinquedo caiu pela janela e
foi correndo procurá-lo na rua. Mas não o encontrou.
Logo
se consolou: afinal, tinha ainda os outros soldadinhos, e todos
com duas pernas.
Para piorar a situação, caiu um verdadeiro temporal.
Quando a tempestade foi cessando, e o céu limpou um pouco,
chegaram dois moleques. Eles se divertiam, pisando com os pés
descalços nas poças de água. Um deles viu
o soldadinho de chumbo e exclamou:
— Olhe! Um soldadinho! Será que alguém jogou
fora
porque ele está quebrado?
— É, está um pouco amassado. Deve ter vindo
com a
enxurrada.
— Não, ele está só um pouco sujo.
— O que nós vamos fazer com um soldadinho só?
Precisaríamos pelo menos meia dúzia, para organizar
uma
batalha.
— Sabe de uma coisa? — Disse o primeiro garoto. —
Vamos colocá-lo num barco e mandá-lo dar a volta
ao mundo.
E assim foi. Construíram um barquinho com uma folha
de jornal, colocaram o soldadinho dentro dele e soltaram o
barco para navegar na água que corria pela sarjeta.
Apoiado em sua única perna, com o fuzil ao ombro,
o soldadinho de chumbo procurava manter o equilíbrio. O
barquinho dava saltos e esbarrões na água lamacenta,
acompanhado pelos olhares dos dois moleques que,
entusiasmados com a nova brincadeira, corriam pela
calçada ao lado.
Lá pelas tantas, o barquinho foi jogado para dentro de
um bueiro e continuou seu caminho, agora subterrâneo, em
uma imensa escuridão. Com o coração batendo
fortemente, o soldadinho voltava todos seus pensamentos para a
bailarina, que talvez nunca mais pudesse ver.
De repente, viu chegar em sua direção um enorme
rato
de esgoto, olhos fosforescentes e um horrível rabo fino
e
comprido, que foi logo perguntando:
— Você tem autorização para navegar?
Então? Ande,
mostre-a logo, sem discutir.
O soldadinho não respondeu, e o barquinho continuou
seu incerto caminho, arrastado pela correnteza. Os gritos do
rato do esgoto exigindo a autorização foram ficando
cada vez
mais distantes.
Enfim, o soldadinho viu ao longe uma luz, e respirou
aliviado; aquela viagem no escuro não o agradava nem um
pouco. Mal sabia ele que, infelizmente, seus problemas não
haviam acabado.
A água do esgoto chegara a um rio, com um grande
salto; rapidamente, as águas agitadas viraram o frágil
barquinho de papel.
O barquinho virou, e o soldadinho de chumbo afundou.
Mal tinha chegado ao fundo, apareceu um enorme peixe que,
abrindo a boca, engoliu-o.
O soldadinho se viu novamente numa imensa
escuridão, espremido no estômago do peixe. E não
deixava
de pensar em sua amada: “O que estará fazendo agora
sua
linda bailarina? Será que ainda se lembra de mim?”.
E, se não fosse tão destemido, teria chorado lágrimas
de chumbo, pois seu coração sofria de paixão.
Passou-se muito tempo — quem poderia dizer quanto?
E, de repente, a escuridão desapareceu e ele ouviu quando
falavam:
— Olhe! O soldadinho de chumbo que caiu da janela!
Sabem o que aconteceu? O peixe havia sido fisgado por
um pescador, levado ao mercado e vendido a uma cozinheira. E,
por cúmulo da coincidência, não era qualquer
cozinheira, mas sim a que trabalhava na casa do menino que ganhara
o soldadinho no aniversário. Ao limpar o peixe, a cozinheira
encontrara dentro dele o soldadinho, do qual se lembrava muito
bem, por causa daquela única perna.
Levou-o para o garotinho, que fez a maior festa ao
revê-lo. Lavou-o com água e sabão, para tirar
o fedor de peixe, e endireitou a ponta do fuzil, que amassara
um pouco durante aquela aventura.
Limpinho e lustroso, o soldadinho foi colocado sobre
a mesma mesa em que estava antes de voar pela janela.
Nada estava mudado. O castelo de papel, o pequeno bosque de árvores
muito verdes, o lago reluzente feito de espelho. E, na porta do
castelo, lá estava ela, a bailarina: sobre uma perna só,
com os braços erguidos acima da cabeça, mais bela
do que nunca.
O soldadinho olhou para a bailarina, ainda mais
apaixonado, ela olhou para ele, mas não trocaram palavra
alguma. Ele desejava conversar, mas não ousava. Sentia-se
feliz apenas por estar novamente perto dela e poder amá-la.
Se pudesse, ele contaria toda sua aventura; com certeza a
linda bailarina iria apreciar sua coragem. Quem sabe, até
se
casaria com ele…
Enquanto o soldadinho pensava em tudo isso, o
garotinho brincava tranqüilo com o pião.
De repente como foi, como não foi — é caso
de se
pensar se o geniozinho ruim da cigarreira não metera seu
nariz
— o garotinho agarrou o soldadinho de chumbo e atirou-o
na lareira, onde o fogo ardia intensamente.
O pobre soldadinho viu a luz intensa e sentiu um forte
calor. A única perna estava amolecendo e a ponta do fuzil
envergava para o lado. As belas cores do uniforme, o vermelho
escarlate da túnica e o azul da calça perdiam suas
tonalidades.
O soldadinho lançou um último olhar para a bailarina,
que retribuiu com silêncio e tristeza. Ele sentiu então
que seu
coração de chumbo começava a derreter —
não só pelo calor, mas principalmente pelo amor
que ardia nele.
Naquele momento, a porta escancarou-se com
violência, e uma rajada de vento fez voar a bailarina de
papel
diretamente para a lareira, bem junto ao soldadinho. Bastou
uma labareda e ela desapareceu. O soldadinho também se
dissolveu completamente.
No dia seguinte. a arrumadeira, ao limpar a lareira,
encontrou no meio das cinzas um pequenino coração
de
chumbo: era tudo que restara do soldadinho, fiel até o
último
instante ao seu grande amor.
Da pequena bailarina de papel só restou a minúscula
pedra
azul da tiara, que antes brilhava em seus longos cabelos negros.
Há
200 anos nasceu o dinamarquês Hans Christian Andersen, autor
mundialmente conhecido por seus contos e livros infanto-juvenis.
Nasceu pobre, achava-se alto, feio, magro e narigudo. Quando morreu,
em 1875, deixou uma grande obra literária e hoje é
nome do mais importante prêmio de literatura infantil do
mundo. Escreveu clássicos como A pequena sereia, O patinho
feio, A roupa nova do rei e O soldadinho de chumbo, e ficou conhecido
pela simplicidade em tratar nas suas histórias a vida cotidiana
da pequena cidade dinamarquesa onde nasceu. |