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LITERATURA

 

A Borboleta Azul

Havia um viúvo que morava com suas duas filhas que eram muito curiosas e inteligentes. As meninas estavam o tempo todo fazendo perguntas. Algumas ele sabia responder, outras não. Algumas vezes não temos realmente a resposta outras preferimos nos abster.

Como todo pai, que quer sempre o melhor para os filhos, ele pretendia oferecer a elas a melhor educação, então mandou as meninas passarem férias com um sábio que morava no alto de uma colina.

O sábio sempre respondia todas as perguntas sem hesitar. Impacientes com o sábio, as meninas resolveram inventar uma pergunta que ele não saberia responder.

Então, uma delas apareceu com uma linda borboleta azul que usaria para pregar uma peça no sábio.

- O que você vai fazer? - perguntou a irmã.

- Vou esconder a borboleta em minhas mãos e perguntar se ela está viva ou morta.

- Se ele disser que ela está morta, vou abrir minhas mãos e deixá-la voar. Se ele disser que ela está viva, vou apertá-la e esmagá-la. E assim qualquer resposta que o sábio nos der estará errada!

As duas meninas foram então ao encontro do sábio, que estava meditando.

- Tenho aqui uma borboleta azul. Diga-me sábio, ela está viva ou morta?

Calmamente o sábio sorriu e respondeu:

- Depende de você... ela está em suas mãos.

Assim é a nossa vida, o nosso presente e o nosso futuro. Não devemos culpar ninguém quando algo dá errado. Somos nós os responsáveis por aquilo que fazemos ou deixamos de fazer; conquistamos ou não conquistamos. Nós somos os próprios culpados pelas nossa vitórias e fracassos. Deus nos deixa escolher.

A fábula é uma das mais antigas maneiras de se contar uma história. O autor grego Esopo usava muitos bichos como personagens de suas fábulas, como tartarugas, lebres, raposas, formigas e cigarras. Através das histórias ele criticava os valores da sociedade de sua época, para mostrar o que é certo e o que é errado.

 

Autor: Esopo
O Carvalho e os Juncos

Um grande carvalho foi arrancado do chão pela ventania e arrastado por forte correnteza. Então dentro da água ele se viu no meio de alguns Juncos, e, assim lhes falou:
- Gostaria de ser como vocês que de tão esguios e frágeis não são de modo algum afetados por estes fortes ventos.
Eles responderam:
- Você lutou e competiu com o vento, e, conseqüentemente foi destruído. Nós, ao contrário, nos curvamos diante do mais leve sopro de ar, e, por esta razão permanecemos inteiros e a salvo.
Moral: Para vencermos o mais forte, não devemos usar a força e sim a gentileza e a humildade.


A lebre e a tartaruga
Um dia uma tartaruga começou a contar vantagem dizendo que corria muito depressa, que a lebre era muito mole, e enquanto falava, a tartaruga ria e ria da lebre. Mas a lebre ficou mesmo impressionada foi quando a tartaruga resolveu apostar uma corrida com ela.

"Deve ser só de brincadeira!", pensou a lebre.

A raposa era o juiz e recebia as apostas. A corrida começou, e na mesma hora, claro, a lebre passou à frente da tartaruga. O dia estava quente, por isso lá pelo meio do caminho a lebre teve a idéia de brincar um pouco. Depois de brincar, resolveu tirar uma soneca à sombra fresquinha de uma árvore.

"Se por acaso a tartaruga me passar, é só correr um pouco e fico na frente de novo", pensou.

A lebre achava que não ia perder aquela corrida de jeito nenhum. Enquanto isso, lá vinha a tartaruga com seu jeitão, arrastando os pés, sempre na mesma velocidade, sem descansar nem uma vez, só pensando na chegada. Ora, a lebre dormiu tanto que esqueceu de prestar atenção na tartaruga. Quando ela acordou, cadê a tartaruga? Bem que a lebre se levantou e saiu zunindo, mas nem adiantava! De longe ela viu a tartaruga esperando por ela na linha de chegada.

Moral: Devagar e sempre se chega na frente.


A raposa e a máscara
Um dia uma raposa entrou na casa de um ator e encontrou uma linda máscara no meio de uma pilha de objetos usados no teatro. Encostando a pata na máscara, disse:

- Que belo rosto temos aqui! Pena que não tenha cérebro.


Os ladrões e o galo
Uma vez uns ladrões entraram numa casa, mas não encontraram nada que valesse a pena roubar, a não ser um galo. O coitado do galo disse a eles tudo o que um galo é capaz de dizer para tentar salvar a pele. Disse que eles não esquecessem como ele era importante para as pessoas com seu canto que acordava a todos na hora de ir trabalhar.

– Olhe, seu galo – disse um dos ladrões – , é melhor parar com essas conversa. Você passa o tempo acordando as pessoas e o resultado é que não conseguimos roubar sossegados.

Moral: Nem o que temos de melhor agrada a todo mundo.


O lobo e o burro
Um burro estava comendo quando viu um lobo escondido espiando tudo o que ele fazia. Percebendo que estava em perigo, o burro imaginou um plano para salvar a pele. Fingiu que era aleijado e saiu mancando com a maior dificuldade. Quando o lobo apareceu, o burro todo choroso contou que tinha pisado num espinho pontudo.

– Ai, ai, ai! Por favor, tire o espinho de minha pata! – implorou. – Se você não tirar, ele vai espetar sua garganta quando você me engolir.

O lobo não queria se engasgar na hora de comer seu almoço, por isso quando o burro levantou a pata ele começou a procurar o espinho com todo o cuidado. Nesse momento o burro deu o maior coice de sua vida e acabou com a alegria do lobo. Enquanto o lobo se levantava todo dolorido, o burro galopava satisfeito para longe dali.

Moral: Cuidado com os favores inesperados.


O leopardo e a raposa
Uma raposa e um leopardo estavam deitados descansando depois de um laudo jantar e se distraíam falando da própria beleza. O leopardo tinha muito orgulho de sua pele lustrosa e toda pintada, e dizia à raposa que ela era completamente sem graça. A raposa se orgulhava da bela cauda estufada com a pontinha branca, mas tinha o bom senso de reconhecer que não chegava aos pés do leopardo em matéria de aparência. Mesmo assim, continuou com suas brincadeiras, fazendo troça do outro só pelo prazer da discussão e para não perder a prática. O leopardo já estava quase perdendo a paciência quando a raposa levantou bocejando e disse:

- Você pode ter um pêlo muito requintado, mas estaria mais bem servido se tivesse um pouquinho mais de requinte dentro da cabeça e menos ao redor das costelas, como eu. Para mim, beleza de verdade é isso.

Moral: Nem sempre bela embalagem anuncia belo recheio.


O lobo e a cegonha
Um lobo devorou sua caça tão depressa, com tanto apetite, que acabou ficando com um osso entalado na garganta. Cheio de dor, o lobo começou a correr de um lado para outro soltando uivos, e ofereceu uma bela recompensa para quem tirasse o osso de sua garganta. Com pena do lobo e com vontade de ganhar o dinheiro, uma cegonha resolveu enfrentar o perigo. Depois de tirar o osso, quis saber onde estava a recompensa que o lobo tinha prometido.

- Recompensa? – berrou o lobo. – Mas que cegonha pechinchona! Que recompensa, que nada! Você enfiou a cabeça na minha boca e em vez de arrancar sua cabeça com uma dentada deixei que você a tirasse lá de dentro sem um arranhãozinho. Você não acha que tem muita sorte, seu bicho insolente! Dê o fora e se cuide para nunca mais chegar perto de minhas garras!

Moral: Não espere gratidão ao mostrar caridade para um inimigo.


O urso e a raposa
Um urso passava o tempo contando como gostava dos homens.

– Não vou lá perturbar nem estraçalhar os homens quando eles morrem – disse ele.

A raposa respondeu com um sorriso:

– Eu ia ficar mais convencida de sua bondade se você não costumasse comer os homens vivos!

Moral: Mais vale ter pena dos vivos que respeito com os mortos.


A velha e suas criadas
Uma viúva econômica e zelosa tinha duas empregadas. As empregadas da viúva trabalhavam, trabalhavam e trabalhavam. De manhã bem cedo tinham que pular da cama, pois sua velha patroa queria que começassem a trabalhar assim que o galo cantasse. As duas detestavam ter que levantar tão cedo, especialmente no inverno, e achavam que se o galo não acordasse a patroa tão cedo talvez pudessem dormir mais um pouco. Por isso pegaram o galo e torceram seu pescoço. Mas não estavam preparadas para as conseqüências do que fizeram. Porque o resultado foi que a patroa, sem o despertador do galo, passou a acordar as criadas ainda mais cedo e punha as duas para trabalhar no meio da noite.

Moral: Muita esperteza nem sempre dá certo.


A montanha
Há muitos e muitos anos uma montanha começou a fazer um barulhão. As pessoas acharam que era porque ela ia ter um filho. Veio gente de longe e de perto, e se formou uma grande multidão querendo ver o que ia nascer da montanha. Bobos e sabidos, todos tinham seus palpites. Os dias foram passando, as semanas foram passando e no fim os meses foram passando, e o barulho da montanha aumentava cada vez mais. Os palpites das pessoas foram ficando cada vez mais malucos. Alguns diziam que o mundo ia acabar. Um belo dia o barulho ficou fortíssimo, a montanha tremeu toda e depois rachou num rugido de arrepiar os cabelos. As pessoas nem respiravam de medo. De repente, do meio do pó e do barulho, apareceu... um rato.

Moral: Nem sempre as promessas magníficas dão resultados impressionantes.



A águia e a seta
Uma águia pousada num penhasco olhava com muita atenção para todos os lados procurando uma presa. Um caçador, escondido numa fenda da montanha e em busca de caça, viu a águia lá em cima e lançou uma seta. A haste da seta penetrou no peito da águia e atravessou seu coração. Pouco antes de morrer, a águia fixou os olhos na seta:

- Ah, sorte ingrata! – exclamou. – Morrer desse jeito... Mas o mais triste é ver que a seta que me mata tem penas de águia!

Moral: As desgraças para as quais nós mesmos contribuímos são duplamente amargas.


O urso e as abelhas
Um urso topou com uma árvore caída que servia de depósito de mel para um enxame de abelhas. Começou a farejar o tronco quando uma das abelhas do enxame voltou do campo de trevos. Adivinhando o que ele queria, deu uma picada daquelas no urso e depois desapareceu no buraco do tronco. O urso ficou louco de raiva e se pôs a arranhar o tronco com as garras na esperança de destruir o ninho. A única coisa que conseguiu foi fazer o enxame inteiro sair atrás dele. O urso fugiu a toda a velocidade e só se salvou porque mergulhou de cabeça num lago.

Moral: Mais vale suportar um só ferimento em silêncio
que perder o controle e acabar todo machucado.


O homem, seu filho e o burro...

Um homem ia com o filho levar um burro para vender no mercado.

– O que você tem na cabeça para levar um burro estrada afora sem nada no lombo enquanto você se cansa? – disse um homem que passou por eles.

Ouvindo aquilo, o homem montou o filho no burro, e os três continuaram seu caminho!

– Ô rapazinho preguiçoso, que vergonha deixar o seu pobre pai, um velho andar a pé enquanto vai montado! – disse outro homem com quem cruzaram.

O homem tirou o filho de cima do burro e montou ele mesmo. Passaram duas mulheres e uma disse para a outra:

– Olhe só que sujeito egoísta! Vai no burro e o filhinho a pé, coitado...

Ouvindo aquilo, o homem fez o menino montar no burro na frente dele. O primeiro viajante que apareceu na estrada perguntou ao homem:

– Esse burro é seu?

O homem disse que sim. O outro continuou:

– Pois não parece, pelo jeito como o senhor trata o bicho. Ora, o senhor é que devia carregar o burro em lugar de fazer com que ele carregasse duas pessoas.

Na mesma hora o homem amarrou as pernas do burro num pau, e lá se foram pai e filho aos tropeções carregando o animal para o mercado. Quando chegaram, todo mundo riu tanto que o homem, enfurecido, jogou o burro no rio, pegou o filho pelo braço e voltou para casa.

Moral: Quem quer agradar todo mundo no fim não agrada ninguém.


A reunião geral dos ratos
Uma vez os ratos, que viviam com medo de um gato, resolveram fazer uma reunião para encontrar um jeito de acabar com aquele eterno transtorno. Muitos planos foram discutidos e abandonados. No fim um rato jovem levantou-se e deu a idéia de pendurar uma sineta no pescoço do gato; assim, sempre que o gato chegasse perto eles ouviriam a sineta e poderiam fugir correndo. Todo mundo bateu palmas: o problema estava resolvido. Vendo aquilo, um rato velho que tinha ficado o tempo todo calado levantou-se de seu canto. O rato falou que o plano era muito inteligente, que com toda certeza as preocupações deles tinham chegado ao fim. Só faltava uma coisa: quem ia pendurar a sineta no pescoço do gato?

Moral: Inventar é uma coisa, fazer é outra.


O rapaz e a moça inconstante
Certo dia uma moça inconstante disse a um rapaz:

- Meu querido, muitos homens me amam, muitos me querem, mas eu só amo você e espero ter você um dia. Não estou preocupada com riqueza, neste mundo só quero você.

E o rapaz respondeu, mesmo sabendo que ela era inconstante:

- Nós dois queremos a mesma coisa, pois meu coração chora por você. É verdade que você já me enganou um dia, mas amo você e sempre vou amar.

Foi assim que o rapaz ingênuo foi iludido pela moça inconstante.

Moral: Cuidado com quem diz que não quer seu dinheiro.


O burro e seu condutor
Um burro que estava sendo conduzido por uma estrada conseguiu se soltar de seu condutor e saiu correndo o mais depressa que pôde, na direção de um precipício. Já ia caindo quando seu condutor chegou correndo e conseguiu segurar seu rabo. Começou a puxar o burro pelo rabo com toda a força, tentando levar o animal para um lugar seguro. O burro, porém, aborrecido com a interferência, fazia força na direção oposta, e o homem acabou sendo obrigado a largá-lo.

- Bom, Jack – disse o condutor -se você quer dar as ordens, não posso impedi-lo.

Moral: Os animais teimosos devem seguir seus caminhos


O gato, o galo e o ratinho...
Um ratinho vivia num buraco com sua mãe. Depois de sair sozinho pela primeira vez, contou a ela:

- Mãe, você não imagina os bichos estranhos que encontrei! Um era bonito e delicado, tinha um pêlo muito macio e um rabo elegante, um rabo que se movia formando ondas. O outro era um monstro horrível! No alto da cabeça e debaixo do queixo ele era desprovido de penas. De repente os lados do corpo dele se sacudiram e ele deu um grito apavorante. Fiquei com tanto medo que fugi correndo, bem na hora que ia conversar um pouco com o simpático.

- Ah, meu filho! – respondeu a mãe. – Esse seu monstro era uma ave inofensiva; um galo com sua crista vermelha, o outro era um gato feroz, que num segundo teria te devorado.

Moral: Jamais confie nas aparências.


Os dois amiguinhos
Uma vez uma garça adotou um filhote de tigre órfão e criou o bebê junto com seu próprio filho. Os dois viraram grandes amigos, e todo dia faziam a maior bagunça, sem jamais brigar. Na realidade, eram as crianças mais boazinhas do mundo. Um dia apareceu outra garça que era uma encrenqueira; essa garça tratou muito mal o bebê garça. O bebê garça pediu socorro, e o tigre veio correndo: num instante engoliu a encrenqueira. Só ficou um ossinho e um punhado de penas para contar a história. O tigre, que tinha sido criado num regime vegetariano, achou aquela comida diferente uma maravilha. Lambendo os bigodes, piscou o olho e disse:

– Como eu gosto de você minha pequena garça!

E zás, lá se foi sua companheira de brincadeiras servir de sobremesa para o piquenique improvisado.

Moral: Nada elimina o que a natureza determina.


O Asno e o Velho Pastor
Um pastor observava tranqüilo seu asno pastando em uma verde pradaria.

De repente ouviu ao longe os gritos de uma tropa inimiga que se aproximava rapidamente.

Ele rogou ao animal para que este corresse levando-o na garupa, o mais rápido que pudesse, a fim de que não fossem ambos capturados. O asno com calma, falou:

Por que eu deveria temer o inimigo? Você acha provável que o conquistador coloque em mim, além dos dois cestos de carga que carrego, outros dois?

Não - respondeu o pastor.

Então - disse o animal - contanto que eu carregue os dois cestos que já possuo, que diferença faz a quem estou servindo?

Ao mudar o governante, para o pobre, nada muda além do nome do seu novo senhor.


O pescador flautista
Um pescador que gostava mais de música que das redes começou a tocar flauta quando viu peixes no mar. Achava que ouvindo aquilo os peixes iam pular para a praia. Vendo que eles continuavam dentro da água, o pescador pegou uma rede e apanhou um belo cardume, que arrastou para terra. Quando viu os peixes pulando e batendo a cauda na areia ele sorriu e disse:

- Como vocês não quiseram dançar ao som da minha flauta, também não vou permitir que dancem agora!

Moral: Fazer a coisa certa na hora certa é uma grande arte.



QUEM FOI ESOPO?
Fabulista grego, nascido pelo ano de 620 a. C. Ignora-se o lugar de seu nascimento; alguns dizem ter sido Samos ou Sardes. Segundo o historiador Heródoto, Esopo teria nascido na Frígia e trabalhava como escravo numa casa. Há ainda alguns detalhes atribuídos à biografia de Esopo, cuja veracidade não se pode comprovar: seria corcunda e gago, protegido do rei Creso.

Esopo teria sido condenado à morte depois de uma falsa acusação de sacrilégio, ou talvez porque os habitantes de Delfos estivessem irritados com suas zombarias, ou ainda porque suspeitassem de que Esopo teria a intenção de ficar com o dinheiro que Creso lhe tinha destinado.

Esopo não deixou nada escrito: as fábulas que lhe são atribuídas pela tradição foram recolhidas pela primeira vez por Demétrio de Falera, por volta de 325 a.C.
Antes do advento da impressão, as fábulas de Esopo eram ilustradas em louça, em manuscritos e até em tecidos.

Discute-se a sua existência real, assim como acontece com Homero. Levanta-se a possibilidade de sua obra ser uma compilação de fábulas ditadas pela sabedoria popular da antiga Grécia.


O ursinho e as abelhas
Leonardo da Vinci


Um filhote de urso estava passeando pela floresta quando viu um buraco no tronco de uma árvore.

Olhando mais de perto, reparou que uma porção de abelhas entrava e saía constantemente do buraco. Algumas permaneciam em frente à entrada como se estivessem montando guarda. Outras chegavam voando e entravam. Outras ainda saíam e sumiam pela floresta adentro.

Cada vez mais curioso, o ursinho pôs-se em pé nas patas traseiras, meteu o focinho no buraco, farejou e depois enfiou uma pata.

Quando retirou a pata ela estava lambuzada de mel.

Porém mal começara a lambê-la quando um enxame de abelhas enfurecidas saiu do buraco e atacou-o, mordendo-lhe o focinho, as orelhas, a boca, todo ele.

O ursinho tentou defender-se, mas se enxotava as abelhas para um lado elas voltavam e atacavam pelo outro. Enfurecido, tentou vingar-se através de golpes pelos dois lados. Porém, querendo atingir a todas, não conseguiu derrubar nenhuma. Finalmente rolou pelo chão até que, vencido pelo medo e pela dor das picadas, voltou correndo e chorando para junto de sua mãe.


O Riacho
Leonardo da Vinci
Um riacho da montanha, esquecendo-se de que devia sua água à chuva e a pequenos córregos, resolveu crescer até ficar do tamanho de um rio.

Pôs-se então a atirar-se violentamente de encontro às suas margens, arrancando terra e pedras a fim de alargar seu leito.

Mas quando a chuva acabou a água diminuiu. O pobre riacho viu-se preso entre as pedras que arrancara de suas margens e foi forçado a, com grande esforço, encontrar outro caminho para descer até o vale.

Moral: Quem tudo quer tudo perde.

Leonardo da Vinci (1452-1519), artista florentino, um dos grandes mestres do Renascimento, famoso como pintor, escultor, arquiteto, engenheiro e cientista. Nasceu em Vinci, perto de Florença, filho ilegítimo de um notário com uma camponesa. Além do desenho, pintura e escultura, dedicou-se, também, ao estudo da física, anatomia, botânica, matemática, geologia e ciências hidráulicas. Leonardo da Vinci é um dos maiores nomes da história da humanidade.

A menina do leite
Jean de La Fontaine

A menina não cabia em si de felicidade. Pela primeira vez iria à cidade vender o leite de sua vaquinha. Trajando o seu melhor vestido, ela partiu pela estrada com a lata de leite na cabeça.
Enquanto caminhava, o leite chacoalhava dentro da lata.
E os pensamentos faziam o mesmo dentro da sua cabeça.
"Vou vender o leite e comprar uma dúzia de ovos."
"Depois, choco os ovos e ganho uma dúzia de pintinhos."
"Quando os pintinhos crescerem, terei bonitos galos e galinhas."
"Vendo os galos e crio as frangas, que são ótimas botadeiras de ovos."
"Choco os ovos e terei mais galos e galinhas."
"Vendo tudo e compro uma cabrita."
"Se cada cabrita me der três cabritinhos, vendo dois, fico com um e ..."
A menina estava tão distraída que tropeçou numa pedra, perdeu o equilíbrio e levou um tombo.
Lá se foi o leite branquinho pelo chão.
E os ovos, os pintinhos, os galos, as galinhas, os cabritos, as cabritinhas pelos ares.

Moral:Não se deve contar com uma coisa antes de consegui-la.


Jean de La Fontaine era filho de um inspetor de águas e florestas, e nasceu na pequena cidade de Chateau-Thierry. Estudou teologia e direito em Paris, mas seu maior interesse sempre foi a literatura.



A cigarra e a formiga
Jean de La Fontaine
A cigarra, sem pensar em guardar, a cantar passou o verão. Eis que chega o inverno, e então, sem provisão na despensa, como saída, ela pensa em recorrer a uma amiga: sua vizinha, a formiga, pedindo a ela emprestado algum grão, qualquer bocado, até o bom tempo voltar. "Antes de agosto chegar, pode estar certa a senhora: pago com juros, sem mora.
“ Obsequiosa, certamente, a formiga não seria.
"Que fizeste até outro dia? "perguntou à imprevidente.
"Eu cantava, sim, Senhora, noite e dia, sem tristeza.
"Tu cantavas? Que beleza! Muito bem: pois dança agora...
*Do livro Fábulas de La Fontaine, 1992.

A cigarra e a formiga
Monteiro Lobato
Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé do formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas. Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas. A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém. Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu – tique, tique, tique... Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num xalinho de paina. - Que quer? – perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir. - Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu...
A formiga olhou-a de alto a baixo. - E que fez durante o bom tempo que não construí a sua casa? A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse. - Eu cantava, bem sabe... - Ah!... exclamou a formiga recordando-se. Era você então que cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas? - Isso mesmo, era eu... Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo. A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.
*Do livro Fábulas, Monteiro Lobato, 1994

Outra versão...
Era uma vez uma formiguinha e uma cigarra que eram muito amigas. Durante todo o Outono, a formiguinha trabalhou sem parar, a fim de armazenar comida para o período de Inverno. Não aproveitou nada do sol, da brisa suave do fim da tarde, do lindo pôr-do-sol do Outono nem da conversa com as amigas. Só vivia para o trabalho! Enquanto isso, a cigarra não desperdiçou um minuto sequer: cantou durante todo o Outono, dançou, aproveitou os tempos livres, sem se preocupar muito com o Inverno que estava a chegar.
Então, passados alguns dias, começou a arrefecer. Era o Inverno que estava a bater à porta. A formiguinha exausta, entrou na sua singela e aconchegante toca, repleta de comida. Entretanto, alguém chamava pelo seu nome do lado de fora da toca e, quando abriu a porta, ficou surpresa: era a sua amiga cigarra, vestida com um maravilhoso casaco de lã e com uma mala e uma guitarra nas mãos.
- Olá, amiga! - cumprimentou a cigarra. - Vou passar o Inverno em Paris. Será que você podia cuidar da minha toca?
- Claro! Mas o que aconteceu para você ir para Paris?
A cigarra respondeu-lhe:
- Imagine você que, na semana passada, eu estava a cantar num restaurante e um produtor gostou tanto da minha voz que fechei um contrato de seis meses para fazer espetáculos em Paris. A propósito, amiga, deseja algo de lá?
A formiguinha respondeu:
- Desejo, sim: se você encontrar por lá
um tal de La Fontaine, o que escreveu a nossa história, manda-lhe um abraço...
Procura-se pelo autor

O Patinho Feio
Adaptação de um conto de Hans Christian Andersen
Era uma vez...

Uma patinha que teve quatro patinhos muito lindos, porém quando nasceu o último, a patinha exclamou espantada:
- Nossa, que patinho tão feio!

Quando a mãe pata nadava com os filhos, todos os animais da quinta olhavam para eles:
- Que pato tão grande e tão feio!
Os irmãos tinham vergonha dele e gritavam-lhe:
- Vai-te embora porque é por tua causa que toda a gente está a olhar para nós!

Afastou-se tanto que deu por si na outra margem. De repente, ouviram-se uns tiros. O Patinho Feio observou como um bando de gansos se lançava em vôo. Os cães dos caçadores perseguiram-no furioso.

Conseguiu escapar do cão mas não tinha para onde ir, não deixava de andar. Finalmente o Inverno chegou. Os animais do bosque olhavam para ele cheios de pena.
- Onde é que irá o Patinho Feio com este frio? Não parava de nevar. Escondeu-se debaixo de uns troncos e foi ali que uma velhinha com um cãozinho o encontrou.
- Pobrezinho! Tão feio e tão magrinho!
E levou-o para casa.

Lá em casa, trataram muito bem dele. Todos, menos um gatinho cheio de ciúme, que pensava: "Desde que este patucho está aqui, ninguém me liga".

Voltou a Primavera. A velha cansou-se dele, porque não servia para nada: não punha ovos e, além disso, comia muito, porque estava a ficar muito grande.
O gato então aproveitou a ocasião.
- Vai-te embora! Não serves para nada!

A nadar chegou a um lago em que passeavam dois belos cisnes que olhavam para ele. O Patinho Feio pensou que o iriam enxotar. Muito assustado, ia esconder a cabeça entre as asas quando, ao ver-se refletido na água, viu, nada mais nada menos, do que um belo cisne que não era outro senão ele próprio.

Os cisnes desataram a voar e o Patinho Feio fugiu atrás deles.
Quando passou por cima da sua antiga quinta, os patinhos, seus irmãos, olharam para eles e exclamaram:
- Que cisnes tão lindos!

~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~

Hans Christian Andersen (1805-1875)

Era uma vez um menino que passava seus dias espiando a vida dos outros. Ao longo do tempo, ele juntou uma porção de histórias curiosas sobre o que via e ouvia nas ruas. Com muita imaginação, criou belos contos. Mais tarde, decidiu publicá-los. E não é que até hoje eles fazem o maior sucesso?!

Era uma vez... um garoto pobre e feio que queria ser ator. Uma de suas poucas alegrias era assistir histórias populares encenadas pelo pai, que era sapateiro, em um teatrinho feito de papelão. Quando o pai morreu, o sonho do menino ficou mais distante, já que ele teria que sustentar a família. Um dia, o garoto partiu para bem longe e passou fome e frio até conhecer um homem que pagou seus estudos e viagens pelo mundo. O menino não se tornou ator, mas ficou rico e famoso escrevendo histórias infantis.

A vida do dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875) daria um conto de fadas. E rendeu muitos, pois em cada narrativa escrita por ele há um pouco de suas tristezas e alegrias, como em O Patinho Feio. Ele é autor de cerca de 160 contos, inspirados no mundo infantil e na tradição popular dinamarquesa, autor de seis romances, além de poesias e de uma autobiografia. Sua obra foi traduzida para mais de 100 línguas.

A princesa e a ervilha

Adaptação de um conto de Hans Christian Andersen

Era uma vez um príncipe que queria se casar
com uma princesa, mas uma princesa de verdade, de sangue real meeeeesmo. Viajou pelo mundo inteiro, à procura da princesa dos seus sonhos, mas todas as que encontrava tinham algum defeito. Não é que faltassem princesas, não: havia de sobra, mas a dificuldade
era saber se realmente eram de sangue real. E o príncipe retornou ao seu castelo, muito triste e desiludido, pois queria muito casar com uma princesa de verdade.
Uma noite desabou uma tempestade medonha. Chovia
desabaladamente, com trovoadas, raios, relâmpagos. Um espetáculo tremendo!
De repente bateram à porta do castelo, e o rei em pessoa foi
atender, pois os criados estavam ocupados enxugando as salas cujas janelas foram abertas pela tempestade.

Era uma moça, que dizia ser uma princesa. Mas ela estava
encharcada de tal maneira, os cabelos escorrendo, as roupas grudadas ao corpo, os sapatos quase desmanchando... que era difícil acreditar que fosse realmente uma princesa real.
A moça tanto afirmou que era uma princesa que a rainha pensou numa forma de provar se o que ela dizia era verdade.
Ordenou que sua criada de confiança empilhasse vinte colchões no quarto de hóspedes e colocou sob eles uma ervilha. Aquela seria a cama da “princesa”.
A moça estranhou a altura da cama, mas conseguiu, com a ajuda de uma escada, se deitar.

No dia seguinte, a rainha perguntou como ela havia dormido.
— Oh! Não consegui dormir — respondeu a moça,
— havia algo duro na minha cama, e me deixou até manchas
roxas no corpo!
O rei, a rainha e o príncipe se olharam com surpresa. A moça
era realmente uma princesa! Só mesmo uma princesa verdadeira teria pele tão sensível para sentir um grão de ervilha sob vinte colchões!!!
O príncipe casou com a princesa, feliz da vida, e a ervilha
foi enviada para um museu, e ainda deve estar por lá...
Acredite se quiser, mas esta história realmente aconteceu!

O soldadinho de chumbo

Hans Christian Andersen

Numa loja de brinquedos havia uma caixa de papelão com
vinte e cinco soldadinhos de chumbo, todos iguaizinhos, pois
haviam sido feitos com o mesmo molde. Apenas um deles
era perneta: como fora o último a ser fundido, faltou chumbo
para completar a outra perna. Mas o soldadinho perneta logo
aprendeu a ficar em pé sobre a única perna e não fazia feio ao lado dos irmãos.
Esses soldadinhos de chumbo eram muito bonitos e
elegantes, cada qual com seu fuzil ao ombro, a túnica
escarlate, calça azul e uma bela pluma no chapéu. Além disso, tinham feições de soldados corajosos e cumpridores do dever.
Os valorosos soldadinhos de chumbo aguardavam o
momento em que passariam a pertencer a algum menino.
Chegou o dia em que a caixa foi dada de presente de
aniversário a um garoto. Foi o presente de que ele mais gostou:
— Que lindos soldadinhos! — exclamou maravilhado.
E os colocou enfileirados sobre a mesa, ao lado dos outros
brinquedos. O soldadinho de uma perna só era o último da fileira.
Ao lado do pelotão de chumbo se erguia um lindo
castelo de papelão, um bosque de árvores verdinhas e, em
frente, havia um pequeno lago feito de um pedaço de espelho.
A maior beleza, porém, era uma jovem que estava em
pé na porta do castelo. Ela também era de papel, mas vestia
uma saia de tule bem franzida e uma blusa bem justa. Seu
lindo rostinho era emoldurado por longos cabelos negros,
presos por uma tiara enfeitada com uma pequenina pedra azul.
A atraente jovem era uma bailarina, por isso mantinha
os braços erguidos em arco sobre a cabeça. Com uma das
pernas dobrada para trás, tão dobrada, mas tão dobrada, que acabava escondida pela saia de tule.
O soldadinho a olhou longamente e logo se apaixonou, e
pensando que, tal como ele, aquela jovem tão linda tivesse uma perna só.
“Mas é claro que ela não vai me querer para marido”,
pensou entristecido o soldadinho, suspirando. “Tão elegante,
tão bonita… Deve ser uma princesa. E eu? Nem cabo sou,
vivo numa caixa de papelão, junto com meus vinte e quatro
irmãos”.
À noite, antes de deitar, o menino guardou os
soldadinhos na caixa, mas não percebeu que aquele de uma
perna só caíra atrás de uma grande cigarreira.
Quando os ponteiros do relógio marcaram meia-noite,
todos os brinquedos se animaram e começaram a aprontar
mil e uma. Uma enorme bagunça!
As bonecas organizaram um baile, enquanto o giz da
lousa desenhava bonequinhos nas paredes. Os soldadinhos
de chumbo, fechados na caixa, golpeavam a tampa para sair
e participar da festa, mas continuavam prisioneiros.
Mas o soldadinho de uma perna só e a bailarina não
saíram do lugar em que haviam sido colocados. Ele não
conseguia parar de olhar aquela maravilhosa criatura. Queria
ao menos tentar conhecê-la, para ficarem amigos.
De repente, se ergueu da cigarreira um homenzinho
muito mal-encarado. Era um gênio ruim, que só vivia
pensando em maldades. Assim que ele apareceu, todos os
brinquedos pararam amedrontados, pois já sabiam de quem
se tratava.
O geniozinho olhou a sua volta e viu o soldadinho,
deitado atrás da cigarreira.
— Ei, você aí, por que não está na caixa, com seus
irmãos? — gritou o monstrinho.


Fingindo não escutar, o soldadinho continuou imóvel,
sem desviar os olhos da bailarina.
— Amanhã vou dar um jeito em você, você vai ver!
— gritou o geniozinho enfezado. — Pode esperar.
Depois disso, pulou de cabeça na cigarreira, levantando
uma nuvem que fez todos espirrarem.
Na manhã seguinte, o menino tirou os soldadinhos de
chumbo da caixa, recolheu aquele de uma perna só, que estava caído atrás da cigarreira, e os arrumou perto da janela. O soldadinho de uma perna só, como de costume, era o último da fila.
De repente, a janela se abriu, batendo fortemente as
venezianas. Teria sido o vento, ou o geniozinho maldoso? E
o pobre soldadinho caiu de cabeça na rua.
O menino viu quando o brinquedo caiu pela janela e
foi correndo procurá-lo na rua. Mas não o encontrou. Logo
se consolou: afinal, tinha ainda os outros soldadinhos, e todos com duas pernas.
Para piorar a situação, caiu um verdadeiro temporal.
Quando a tempestade foi cessando, e o céu limpou um pouco, chegaram dois moleques. Eles se divertiam, pisando com os pés descalços nas poças de água. Um deles viu o soldadinho de chumbo e exclamou:
— Olhe! Um soldadinho! Será que alguém jogou fora
porque ele está quebrado?
— É, está um pouco amassado. Deve ter vindo com a
enxurrada.
— Não, ele está só um pouco sujo.
— O que nós vamos fazer com um soldadinho só?
Precisaríamos pelo menos meia dúzia, para organizar uma
batalha.
— Sabe de uma coisa? — Disse o primeiro garoto. —
Vamos colocá-lo num barco e mandá-lo dar a volta ao mundo.
E assim foi. Construíram um barquinho com uma folha
de jornal, colocaram o soldadinho dentro dele e soltaram o
barco para navegar na água que corria pela sarjeta.
Apoiado em sua única perna, com o fuzil ao ombro,
o soldadinho de chumbo procurava manter o equilíbrio. O
barquinho dava saltos e esbarrões na água lamacenta,
acompanhado pelos olhares dos dois moleques que,
entusiasmados com a nova brincadeira, corriam pela
calçada ao lado.
Lá pelas tantas, o barquinho foi jogado para dentro de
um bueiro e continuou seu caminho, agora subterrâneo, em
uma imensa escuridão. Com o coração batendo fortemente, o soldadinho voltava todos seus pensamentos para a bailarina, que talvez nunca mais pudesse ver.
De repente, viu chegar em sua direção um enorme rato
de esgoto, olhos fosforescentes e um horrível rabo fino e
comprido, que foi logo perguntando:
— Você tem autorização para navegar? Então? Ande,
mostre-a logo, sem discutir.
O soldadinho não respondeu, e o barquinho continuou
seu incerto caminho, arrastado pela correnteza. Os gritos do
rato do esgoto exigindo a autorização foram ficando cada vez
mais distantes.
Enfim, o soldadinho viu ao longe uma luz, e respirou
aliviado; aquela viagem no escuro não o agradava nem um
pouco. Mal sabia ele que, infelizmente, seus problemas não
haviam acabado.
A água do esgoto chegara a um rio, com um grande
salto; rapidamente, as águas agitadas viraram o frágil
barquinho de papel.
O barquinho virou, e o soldadinho de chumbo afundou.
Mal tinha chegado ao fundo, apareceu um enorme peixe que,
abrindo a boca, engoliu-o.
O soldadinho se viu novamente numa imensa
escuridão, espremido no estômago do peixe. E não deixava
de pensar em sua amada: “O que estará fazendo agora sua
linda bailarina? Será que ainda se lembra de mim?”.
E, se não fosse tão destemido, teria chorado lágrimas
de chumbo, pois seu coração sofria de paixão.
Passou-se muito tempo — quem poderia dizer quanto?
E, de repente, a escuridão desapareceu e ele ouviu quando
falavam:
— Olhe! O soldadinho de chumbo que caiu da janela!
Sabem o que aconteceu? O peixe havia sido fisgado por
um pescador, levado ao mercado e vendido a uma cozinheira. E,
por cúmulo da coincidência, não era qualquer cozinheira, mas sim a que trabalhava na casa do menino que ganhara o soldadinho no aniversário. Ao limpar o peixe, a cozinheira encontrara dentro dele o soldadinho, do qual se lembrava muito bem, por causa daquela única perna.
Levou-o para o garotinho, que fez a maior festa ao
revê-lo. Lavou-o com água e sabão, para tirar o fedor de peixe, e endireitou a ponta do fuzil, que amassara um pouco durante aquela aventura.
Limpinho e lustroso, o soldadinho foi colocado sobre
a mesma mesa em que estava antes de voar pela janela.

Nada estava mudado. O castelo de papel, o pequeno bosque de árvores muito verdes, o lago reluzente feito de espelho. E, na porta do castelo, lá estava ela, a bailarina: sobre uma perna só, com os braços erguidos acima da cabeça, mais bela do que nunca.
O soldadinho olhou para a bailarina, ainda mais
apaixonado, ela olhou para ele, mas não trocaram palavra
alguma. Ele desejava conversar, mas não ousava. Sentia-se
feliz apenas por estar novamente perto dela e poder amá-la.
Se pudesse, ele contaria toda sua aventura; com certeza a
linda bailarina iria apreciar sua coragem. Quem sabe, até se
casaria com ele…
Enquanto o soldadinho pensava em tudo isso, o
garotinho brincava tranqüilo com o pião.
De repente como foi, como não foi — é caso de se
pensar se o geniozinho ruim da cigarreira não metera seu nariz
— o garotinho agarrou o soldadinho de chumbo e atirou-o
na lareira, onde o fogo ardia intensamente.
O pobre soldadinho viu a luz intensa e sentiu um forte
calor. A única perna estava amolecendo e a ponta do fuzil
envergava para o lado. As belas cores do uniforme, o vermelho escarlate da túnica e o azul da calça perdiam suas tonalidades.
O soldadinho lançou um último olhar para a bailarina,
que retribuiu com silêncio e tristeza. Ele sentiu então que seu
coração de chumbo começava a derreter — não só pelo calor, mas principalmente pelo amor que ardia nele.
Naquele momento, a porta escancarou-se com
violência, e uma rajada de vento fez voar a bailarina de papel
diretamente para a lareira, bem junto ao soldadinho. Bastou
uma labareda e ela desapareceu. O soldadinho também se
dissolveu completamente.
No dia seguinte. a arrumadeira, ao limpar a lareira,
encontrou no meio das cinzas um pequenino coração de
chumbo: era tudo que restara do soldadinho, fiel até o último
instante ao seu grande amor.
Da pequena bailarina de papel só restou a minúscula pedra
azul da tiara, que antes brilhava em seus longos cabelos negros.

Há 200 anos nasceu o dinamarquês Hans Christian Andersen, autor mundialmente conhecido por seus contos e livros infanto-juvenis. Nasceu pobre, achava-se alto, feio, magro e narigudo. Quando morreu, em 1875, deixou uma grande obra literária e hoje é nome do mais importante prêmio de literatura infantil do mundo. Escreveu clássicos como A pequena sereia, O patinho feio, A roupa nova do rei e O soldadinho de chumbo, e ficou conhecido pela simplicidade em tratar nas suas histórias a vida cotidiana da pequena cidade dinamarquesa onde nasceu.

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